Nuno Gomes dos Santos

SETENTA E O MAIS QUE ADIANTE SE VERÁ

Pois olha que foi ontem, agora mesmo. Dei por mim já gasto nos 69 e, educadamente, mudei para os 70, passando a ser olhado com mais respeito por gente que não me interessa porque confunde um número, hipoteticamente concupiscente e libidinoso, com uma pessoa e suas posturas, o gajo vai nos setenta, é muito boa idade para ter juízo.

Azar! Para essa tropa a noção de juízo não tem nada a ver com alegria ou vontade de viver, mas antes com castração e parece mal. Esses, que nunca viram o brilho nos olhos do Armando Baptista-Bastos, não leram os poemas do Assis, não ouviram a voz séria e livre do Luis Filipe Costa antes e depois do adeus, nunca cantaram “somos filhos da madrugada” nem nunca perceberam o que vale um cavalo à solta ou souberam o que custa a um homem levantar-se do chão, esses, sim, são velhos, ainda que púberes, trintões ou quarentões, designativos recheados já do medo dos anos que hão-de vir.

Não que a vida nos tenha sido um mar de rosas, flores que “nascem dos espinhos do meu povo”, como me atrevi a escrever há meio século quando ainda frequentava o Introito das cantigas. Mas das rosas só lhes conhece o sabor quem se picou ao colhê-las. Não foi preciso chegares aos 70 para saberes isso, mas é por isso que este dia tem o seu cheiro, embora a sala onde muitos te saudamos com um abraço cúmplice e fraterno e te desejamos muitos anos de vida esteja, com a propósito, devidamente engalanada com cravos vermelhos.

Nuno Gomes dos Santos