João Paulo Cotrim

Só queria deixar (cair) uma palavra

Até que gostaria do exercício, puxar-te para o centro geométrico assinalado pelo microfone para lixar, polir, arredondar a mesa, qualquer a forma que tivesse ou o jogo que escolhêssemos, com as dúvidas de peso e as histórias mínimas, isto sendo, a matéria com que cada um se vai fazendo. No fim, se tivesse que haver, estariam os redondos vocábulos espalhadinhos pelo chão, desfeitos outros, antenas do devir e voltar, cansados de acompanhar as reviravoltas da conversa. Foi pela palavra que me vieste ao encontro. Desconfio, mas não quero desmentir, antes impressas nas páginas do Se7e ou d’O Jornal, que então funcionavam que nem mar, mai-las marés e marinheiros. Através delas aportavam às mãos ávidas e aos olhos sedentos mundos inteiros e ainda mais. Só depois se fez rádio, portanto a voz ao serviço da potente ideia de que sem o sussurro ou o grito, sem essa tua tranquila animação, o dia não era capaz de acontecer e a noite suspendia a vida. Por essa altura o universo respirava pela telefonia. (Se uso o passado é por estar a aprender a andar à maneira dos antigos, sempre de olhos no ontem e de costas para o futuro.) Não consigo destrinçar a palavra, com que anunciavas o mundo, perguntavas intimidades e dizias do tempo, de cada canção com que sonorizavas as experiências de irmos pondo carne nos esqueletos que locomovíamos. Grande anfitrião dos dias nos saíste! Obrigadinho é o que lhe desejo. Fácil seria imaginar que, pela destreza do teu ofício, estavas feito árvore e as palavras revoavam-te. Na toada do teu modo de dizer escuto sempre aquele balanço, uma quase hesitação, passo atrás a crescer antes de picar sobre a “vítima”. Só a desatenção permite que sejas lido apenas como (grande) intérprete, quando, sacudidos os cabelos, desponta em canoro esplendor o compositor. Cada intervenção atirada ao microfone alargava perspectivas, fazia crescer os mundinhos do quotidiano. E lá se adivinhava transpirante o entusiasmo. É este respirar fundo, este encher de peito para o que der e vier que preciso saudar. Repõe lá no presente a voz e a palavra no começo dos dias. Quero antes de ir e por força de vontade levantar o punho do isto continua por causa das solidariedades que o meu amigo põe e dispõe a torto e a torto, sendo como é da cepa da gente inteiriça, que não quebra nem quando cai. Vou aclarar a voz e conversamos a coisa melhor à esquina dos ventos. Afinal, as vidas podem até ser isto, longas e ininterruptas conversetas. O mesmo será dizer abraço.
E depois, inscrito nesta mesma carne, há o Sporting.