Lucas dos Santos

Excertos de entrevistas do António, onde ele fala da “sua” Figueira, nesta singela homenagem e amizade pelo seu 70º Aniversário.

Em 1969 realizava e apresentava o “ZIP ZIP Figueirense” no Casino da Figueira, com outros colegas do Liceu, infelizmente, dois já desapareceram do nosso convívio.
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António Macedo sobre o Pessidónio – Correio da Manhã de 9.8.2009

– Onde é que estava no dia 15 de Agosto de 1969?

– Estava quase de certeza absoluta de férias e quase de certeza absoluta na Figueira da Foz. Tinha 18 anos, ia fazer 19 nesse ano. E provavelmente estava a trabalhar em termos de pura camaradagem numa boîte, como se dizia na época, denominada ‘Pessidónio’, a segunda mais bonita que existia no País, a mais bonita era a Dono. Urraca no Porto. Eu era amigo do dono, Rui Montargil, irmão do médico que me pôs no mundo, Nuno Montargil.

 

Entrevista do João Paulo Guerra em 15 de Outubro de 2016

– Consideras Lisboa a tua terra?

Lisboa é a cidade de que eu mais gosto e a minha terra é Lisboa. Mas tenho uma grande ligação, profunda, à Figueira da Foz porque vivi lá quatro anos, entre 1965 e 1969. Fiz lá entre o terceiro e o sexto ano do Liceu. Fiz lá muitos amigos e deixei lá, não direi muitas raízes mas muitos troncos, alguns ramos e algumas folhas. Não posso dizer que gosto da cidade mas gosto de muita gente de lá.

–  Eu lembro-me de um episódio da tua vida, a festa dos teus 50 anos, em que foste conduzido para o salão de uma colectividade, em Lisboa, com um pretexto qualquer, e lá chegado abriu-se uma cortina e estavam centenas de amigos teus…
–  … O primeiro que vi entre aquela multidão foi o Mário Zambujal. Uma multidão e nomeadamente uma quantidade de figueirenses que desceu ao povoado. Alguns dos quais eu não via há anos.

Nota minha: tivemos a grande alegria de estarmos “inseridos” nesta grande surpresa que se fez ao António. Nunca mais me esqueci…

 

Entrevista “Notícias ao Minuto” 19.12.2017

…Falta-me fazer uma grande entrevista ao Manuel Alegre, que é para mim um símbolo da luta pela democracia e pela liberdade. É um símbolo que valorizo tanto como valorizo o hino nacional e a bandeira, ou a palavra ‘pátria’.
O meu primeiro gesto voluntariamente antifascista, ou antirregime, foi comprar o ‘O Canto e as Armas’, do Manuel Alegre, por baixo do balcão da Havaneza, na Figueira da Foz. Creio que me custou 14 escudos e 50 centavos.

 

Entrevista ao OBSERVADOR em 12 mar 2017

…Enfim, no geral gostei muito. A mudança, pensado bem, não me afetou nada. E muito menos a mudança para a Figueira, porque a na Figueira fui para a praia.
Viveu na Figueira da Foz entre os quinze e os dezanove anos. Isso é uma altura em que começamos a ter as primeiras namoradas “mais a sério”. Era namoradeiro?
Era, era. Era…
– Ainda por cima com a praia ao pé, imagino…
[Risos] Aí eram as “camones”. Já começava a “internacionalização do conflito”. Era o que era possível. O que era possível e o que era normal. Havia muitas restrições à época, como se sabe. Ou muita gente saberá. Mas pronto, a malta tentava… Era atiradiço, era razoavelmente atiradiço, nem sempre era bem sucedido, mas arriscava sempre, porque nada de mal me podia acontecer. Agora, tinha épocas. Porque havia épocas em que as coisas me corriam lindamente em termos de amor e havia épocas em que era um fracasso completo. Não acertava uma. E nunca percebi isso. Acho que todos nós devemos ter uma aura ou uma coisa qualquer assim, uma coisa qualquer estranha, não sei, e algumas vezes devemos ser mais apetitosos do que outras. [Risos] Não faço ideia. Mas sim, fui namoradeiro. E a primeira namorada a sério, a sério mesmo, que tive é uma figueirense.
– … esse foi o primeiro e único quid pro quo que o António teve com a PIDE, é? Ouvi-o certo dia dizer que o primeiro ato antifascista, consciente, que teve foi a compra da “Praça da Canção”, do Manuel Alegre. Isso não lhe trouxe problemas na altura?
É verdade. Se eu disse que foi o primeiro gesto antifascista, estou a exagerar. Mas foi o primeiro gesto voluntariamente deliberado que pratiquei contra o regime. Sabia que aquilo era uma coisa que o regime, sobre o qual eu vivia, não gostava, nem do Manuel Alegre, nem da edição daquele livro, que estava proibido e que comprei por baixo do balcão da Havaneza, na Figueira da Foz, da dona Helena, que foi quem me vendeu o livro. Ainda tenho essa edição. E foi deliberadamente o primeiro gesto contra o regime. Por essa altura comecei a ouvir falar do Manuel Alegre, da Rádio Portugal Livre.

 

Para terminar e desejando um feliz 70º Aniversário ao António, principalmente com muita saúde, deixo aqui um extrato de um poema do grande poeta figueirense João de Barros:

"Aquele mar que vês além
é sempre o mar da tua infância,
é sempre o mar da tua vida..
E sempre e ainda o seu apelo
a navegá-lo te convida.
Brando sorriso das espumas
a doce curva dessas ondas
que enfeitiçavam teu olhar
e solitária imensidade
que à solidão do teu destino
sabe e sabia então falar..
Hoje como ontem sua voz
Te vem chamar.”
Eterno Mar, Últimos Versos, 1967