Luís Paixão Martins

Apanhei o táxi em Dublin e o chofer era o Macedo

Se a inveja for mesmo um pecado capital estou tramado. Porque invejo, confesso que invejo, aquela tortura pessoal de o Macedo conseguir manter conversas com toda a gente. Durante aquela mão cheia de anos em que convivíamos amiúde, sempre que chegávamos a algum lado, sempre que encontrávamos alguém ou alguém nos encontrava, era certo e sabido que o Macedo se tornava instantaneamente íntimo dessa pessoa ou desse grupo de pessoas. Cheguei a pensar, nos momentos de mais profunda depressão, que ele preparava as cenas, que vinha uns dias antes bater o terreno, apresentar-se, sei lá, decorar os nomes, conhecer as credenciais, identificar o perfil, elaborar por fim um dossiê completo para que, quando chegasse comigo, a minha humilhação fosse completa. É que eu ficava ali no canto ignorado. Ignorado. Em Dublin, quando por acaso nos voltámos a encontrar, muitos muitos anos mais tarde por causa de uma futebolada europeia, o bom do Macedo demorou 97 segundos a convencer um taxista a emprestar-lhe o Mercedes para. Para, mais uma vez, me humilhar com esta demonstração da sua capacidade de fazer amigos de desconhecidos, de fazer cúmplices dos aliados, de tornar próximos, pá os indiferentes. Certamente por isso o Macedo foi sempre um grande repórter, um mágico agarrador de pessoas, um raro descobridor de momentos, um imperdível avia-te rápido que vais entrar no ar. Bastava-me dizer-lhe E agora o retrato do repórter.

 

Luís Paixão Martins foi camarada de redação do António Macedo no jornal Se7e, na revista Mais e na Rádio Comercial. Radialista primeiro, jornalista depois e, finalmente, consultor de Comunicação, lpm, passou ao lado de três grandes carreiras. Reformado dedica-se agora à silvicultura.